Você sabe saborear o seu dinheiro?

Como nosso relacionamento com o dinheiro e a falta de habilidades específicas pode impactar nossa felicidade a despeito de uma boa condição econômica?

Pedro M. Vienna

1/21/20264 min read

green plant in clear glass cup
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Não é nem necessário discutir o quão importante o dinheiro (e uma distribuição justa de renda) é importante para nosso bem estar. Desde real segurança financeira, à possibilidade de consumir experiências e produtos que possam agregar memórias, experiências e identidade ao sujeito, o dinheiro é, e talvez vá sempre ser, o centro de nossas vidas.

Mas como nós aproveitamos a vida durante os momentos de alta, e de baixa do dinheiro?

Já atendi, mais do que gostaria, profissionais liberais, empresários e filhos de empresários que apresentavam um seguinte perfil: seu humor, intestino, relações sociais e praticamente a vida inteira acompanhava de forma paralela o faturamento da empresa, os lucros, a progressão de capital (positivo=positivo, negativo=negativo). Parece algo lógico, mas se formos levar em consideração que nenhuma destas pessoas estava em risco de perder algo insubstituível à vida, como suas moradias ou algo relacionado à qualidade psicológica de vida, surge a pergunta de por que algo, a princípio, tão estéril como uma empresa (ela por si só não produz nada), se torna um orgão do sujeito, sua identidade, algo até mais importante que o próprio dinheiro na conta da pessoa física e o patrimônio já consolidado.

Existe um conceito que se chama “savoring”, “saborear”, que descreve a capacidade de um sujeito de aproveitar determinada experiência em suas qualidades objetivas e subjetivas. Quem nunca ficou triste dentro de uma festa maravilhosa ou comendo um belo jantar? A capacidade de aproveitarmos determinada situação é um repertório complexo de cognições, comportamentos e sentimentos treináveis, que implica em mais ou menos conexão com aquela vivência e mais ou menos resiliência a ruídos, que perpassam tal experiência. Não basta comprar o melhor ALGO, preciso estar disponível para viver essa compra no aqui e agora e aproveitá-la, compartilhá-la e então comemorá-la.

O dinheiro é necessário para a manutenção de experiências cotidianas e o alcance daquelas que são esporádicas, mas sem outras habilidades de saborização, educação financeira, regulação emocional frente a comparações sociais, diferenciação de valores e objetivos relativos ao dinheiro, ele se torna mais prisão do que liberdade. Poucos são os sujeitos que alcançam uma quantia absurda de dinheiro a ponto de nunca mais precisarem se preocupar com ele e a grande maioria, mesmo quando atingem esse ponto, não deixam de se preocupar com o dinheiro ou agora com outra métrica comparativa.

Abundância financeira é interessante somente para o bem estar percebido e não para qualidade de vida, no sentido mais holístico da coisa, envolvendo saúde mental, saúde física, saúde relacional, etc. O bem estar percebido depende do sujeito estar o tempo todo em movimento, buscando novidades competitivas e isso pode ter um efeito negativo quando nãao conectado à capacidade de enlutar ideais, de perder.

O que aprendemos com as pesquisas recentes é o seguinte:

  1. Abundância relacional é mais importante que abundância financeira, mas precisamos de um nível digno de recursos financeiros para viver bem Dívidas (na realidade da maioria dos brasileiros) são coisas perversas que corroem essa dignidade.

  2. Investir em experiências e bens conversáveis é sempre superior a compras compulsivas e gastos solitários que “preenchem” um espaço vazio. Saber diferenciar isso é responsabilidade de cada sujeito, uma vez que não há, verdadeiramente, uma regra para qual comportamento é qual experiência)

  3. Cuide da comparação social, compreenda seus valores e tenha autonomia na hora de contruir seu “castelo”. Às vezes, a vista daquela cobertura nem era a que você estava buscando, e por vezes esse sonho conquistado sem conhecimento aprofundado dos seus desejos, te prende à manutenção necessária desta vida construída com tanto sangue e suor.

Se você entendeu valores, como moral e ética, veja meu artigo sobre: “O que é uma vida que vale a pena ser vivida?”

Referências:
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