Entre Metas e Valores: como viver o ano sem se perder na ansiedade

Você sabe o que fazer depois de conquistar seus objetivos? E Antes? Veja como a Terapia de Aceitação e Compromisso pode te auxiliar.

Pedro M. Vienna

7/11/20255 min read

person writing bucket list on book
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Todo fechamento de ciclos, temos uma dinâmica interessante em que o sujeito olha para o que foi realizado, gozado, perdido e frustrado naquele ano. Esse fechamento de “ciclo” permite o sujeito a vislumbrar o ano seguinte como uma espécie de redenção, reparação superegoica ao seu eu ideal.

Aqui aparecem as resoluções, metas, objetivos, geralmente bastante específicos, que precisam ser “concluídos” ou atingidos durante este novo ano. “Ano novo, novo eu”, essa talvez é uma das frases que mais atrapalha o processo de mudança…

Então temos um desafio, transformar estas metas específicas e que geralmente não respeitam o seu repertório comportamental previamente instalado (aqui consideramos tudo de bom e de “ruim” que te ajuda e te atrapalha a fazer determinadas ações mais complexas) em objetivos e ações comprometidas a valores.

E o que seriam valores? Estamos falando de valor como “valoroso” e não “moral”.
"Valores são princípios orientadores que refletem continuamente o que o indivíduo considera significativo."(Reilly, 2019).

São descrições sobre o que nós queremos fazer com nossas vidas, o tipo de pessoa que queremos ser, o porque continuamos vivendo neste planeta, o como queremos nos comportar de forma contínua. São princípios norteadores que nos guiam e nos motivam durante a vida.

Importante:
Não são sentimentos internos como felicidade, realização, etc. Os sentimentos apontam valores, mas não podem ser eles mesmos.

  1. Estão sempre no aqui e agora, tudo que for uma meta, estará no futuro e não é um valor

  2. Valores não precisam ser justificados, uma vez que são intrínsecos. Eu gosto de dançar simplesmente por que sim, minha história de vida é mais que justificativa suficiente para um valor.

  3. Valores são livremente escolhidos, se você acha que seu valor foi contruído pelo seu meio social, talvez seja hora de entender o quando de você habita nesta construção e o quanto você na verdade busca por algo diferente.

Abaixo algumas áreas da vida em que as pessoas comumente caracterizam como significativas e orientam comportamentos a metas e objetivos:

  1. Bem estar físico: Como você valoriza seu bem estar físico e saúde física? Quais atividades são importantes para isso? Saúde mental: Como você valoriza sua saúde mental? Quais atividades são importantes para sua promoção?

  2. Relações familiares: Qual tipo de relacionamento você deseja ter em uma família? Como isso é importante para você?

  3. Relações Íntimas: Que tipo de parceiro você deseja ser? Em que relacionamento você deseja estar e construir? Como você deseja passar o tempo juntos?

  4. Relações sociais e amizades: Que tipo de amigo você deseja ser? Como você pode nutrir ou construir amizades importantes na sua vida.

  5. Espiritualidade: O que significa para você ter uma vida espiritual? Como pode ser exercitado?

  6. Cidadania e comunidade: Qual sociedade você deseja ser parte de? Como você gostaria de contribuir na sua comunidade?

  7. Hobbies/Recreação: Como você gosta de passar seu tempo recreativo? O que te relaxa e te é prazeroso? Quais tópicos mais te interessam? Aprendizagem/Desenvolvimento: Quais habilidades te parecem interessantes? Sobre o que mais você gostaria de saber sobre o mundo e as pessoas?

  8. Emprego/Carreira/Profissão: Como o trabalho é importante para você? Quais qualidades você admira como profissional? O que você deseja construir e alcançar?

Agora que temos um norte, mais flexível e capaz de contornar objetivos intransponíveis no aqui e agora, temos que pensar como nos relacionar com estes valores que vão além dos objetivos e como contruir e adaptar ações comprometidas a estes valores.

Uma ação comprometida é um verbo, no aqui e agora, que tem sua finalidade nele mesmo. Dizer que eu quero “perder gordura”, “meter o shape”, “diminuir o LDL no sangue”, etc, não são ações comprometidas, ainda que pareçam. Todos os exemplos acima são objetivos que usamos comumente como motivadores à ação: “vou na academia pois preciso perder este sobrepeso, se eu quiser ficar feliz comigo mesmo preciso fazer, ter, perder X”.

Quando se percebe que, na verdade, eu tenho um valor relacinado à minha saúde física e também à minha estética corporal, posso refrasear este objetivos exemplo como: “vou na academia pois tenho como valores cuidar da minha saúde física e mental e ir à academia é uma ação comprometida com estes valores que escolhi para minha vida”.

Desta forma, atingir uma forma de corpo que me agrada se torna um objetivo interessante, mas perpassado por valores, já que, mesmo que eu fracasse em algum mês e não mude nada no meu corpo, a minha bússola segue firme e forte, diferente de,se minha motivação for o próprio objetivo em si.

Faz sentido?

Ao invés de dizer que o mais importante no mundo é ser rico, eu digo o que vou fazer com o dinheiro, como promover uma boa qualidade de vida para minha família e, se, por alguma razão eu perder minhas economias, ainda tenho motivação para fazer as ações que, no aqui e agora, nesta condição não ideal, vão me ajudar a promover qualidade de vida para minha família (muitas coisas trazem qualidade de vida, além do dinheiro, comprovadamente).

Esta narrativa parece pouca coisa, mas é a diferença entre o peso e a ansiedade constante de ainda não estar com X dinheiros na conta do banco, não ter X reconhecimento e a tranquilidade de ir vivendo, trabalhando e construindo estes objetivos, pois já estou vivendo a vida que vale a pena ser vivida, talvez eu nunca chegue nos X dinheiros, mas com certeza tudo que fiz nesse meio tempo valeu a pena em si mesmo, por estar sido conectado aos valores que colocaram este objetivo arbitrário em minha vida lá atrás.

Nada disso anula a necessidade de construir e alcançar bons objetivos, mas complementa este processo limitado de objetivos, com algo mais contínuo que, provavelmente, vai te trazer mais paz de espírito e menos ansiedade nos momentos entre objetivos.

Será que agora você consegue viver os momentos entre suas conquistas?

Mas Pedro, eu sei o que me é importante e sempre sofro pela necessiade de escolher entre uma coisa e outra. Estar com meus filhos é importante, mas investir no meu trabalho também é valoroso. Como decidir e organizar a quantidade de tempo entre uma coisa e outra? Como ter equilíbrio?
Vou fazer um artigo sobre isso, deve se chamar: "Equilíbrio ou movimento? Por que temos tanta obsessão por fechamentos, respostas finais e coisas estáveis, organizadas, perfeitas?"

Referências:
Erin D. Reilly, Timothy R. Ritzert, Arielle A.J. Scoglio, Jasmine Mote, Seiya D. Fukuda, Meghan E. Ahern, Megan M. Kelly,A systematic review of values measures in acceptance and commitment therapy research,Journal of Contextual Behavioral Science,Volume 12,2019,Pages 290-304,ISSN 2212-1447,https://doi.org/10.1016/j.jcbs.2018.10.004.

HAYES, Steven C.; STROSAHL, Kirk D.; WILSON, Kelly G. Terapia de aceitação e compromisso: o processo e a prática da mudança consciente. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2021.